Dom Vital conte-nos um pouco de sua vida: infância, família, etc.
Nascido numa família modesta, sou o penúltimo dos sete filhos, quatro mulheres e três homes. O clima em casa era de união e de alegria apesar das dificuldades e problemas, provocados pelas situações sociais e políticas, que naquela época atingiam a Holanda, pais onde nasci. Basta lembrar os tempos de crise econômica com as restrições nas áreas de trabalho e empregos nos anos 30 do século passado, e os horrores e feridas da segunda guerra mundial, de que , nos anos 40, também nós não fomos poupados. Mas nunca nos faltaram, a solicitude, o carinho e a orientação dos nossos pais. Atribuo essa perseverança que eles deram a seus filhos estão, até agora, presentes na minha memória como pontos de referência.
O que o levou a seguir a vida religiosa e sacerdotal?
O ambiente familiar favoreceu, sem dúvida, a minha opção
pela vocação religiosa e sacerdotal. Não que houve pressões
que me tivessem empurrado nesta direção. Quando saí de
casa para ir para o seminário, meu pai me disse: "Olhe, meu filho,
se você perceber que o seminário não abre o caminho para
o seu futuro, volte para casa".
A palavra "vocação" é normalmente usada em
relação à vida religiosa e à vida sacerdotal.
Mas é bom lembrar que todos os cristãos são chamados
à santidade. Aliás a criatura humana como tal, já traz
em si um desígnio divino, um apelo de Deus. Eu não posso considerar
a minha existência como uma coisa óbvia, algo que me é
devido. Cada um de nós pode dizer: No princípio da minha existência,
como este indivíduo determinado, há uma iniciativa, um Alguém
que me deu a mim mesmo, sem deliberação da minha parte. Esta
presença de Deus se estende ao logo da minha vida. É uma presença
e ação criadora que como um chamado nos alcança, escondido
em mediações humanas por limitadas que sejam: os antepassados,
nossos pais, encontros, exemplos de outros, um sorriso animador de alguém,
situações e acontecimentos que atingem o povo, o mundo...Minha
existência é um dom a ser doador, é um chamado que me
convida a responder, isto é me dá a possibilidade de construir
com responsabilidade a história da minha vida. Cada um é convidado
a dar um conteúdo vocacional à sua vida. E cada um o faz do
seu jeito. Eu optei pela vocação religiosa e sacerdotal.
Quais as maiores dificuldades enfrentadas pelo Senhor no decorrer dos 50 anos de vida sacerdotal?
A vida sacerdotal é uma aprendizagem constante. Nem todas as tarefas de que somos incumbidos são sempre fáceis. Lembro-me que nos primeiros anos as homilias e pregações que devia fazer, eram para mim um verdadeiro desafio. Em parte talvez por certa timidez. Mas também era por causa das línguas, porque os primeiros anos depois da minha ordenação passei fora do Brasil em outros países. Há, porém, outras dificuldades que se fazem sentir principalmente na vida pastoral e que decorrem do próprio ministério sacerdotal que é um "dar a vida". O padre não foi preservado das tendências de um egocentrismo humano. É importante que seu próprio estilo de vida lhe ajude a manter viva a consciência de que sua vida deve ser feita de doação e desapego, sempre aberta ao diálogo.
Por que decidiu viver como eremita e escolheu o Alto do Rio das Pedras em Lídice?
Olhando para traz posso dizer que o desejo de uma vida simples, com espaços para o silêncio e a oração, sempre me acompanhou, como um peixe que aparece e desaparece no mar da vida. O carisma e a espiritualidade da Ordem do Carmo, na qual entrei com meus 20 anos de idade, tinha tudo para alimentar essa aspiração. É uma Ordem religiosa que teve origem num grupo de peregrinos que se estabeleceram no Monte Carmelo na Palestina, lá pelo início do século XIII, assumindo um estilo de vida eremítica. Esse projeto de vida contemplativa ficou como uma marca de nascença mesmo depois da transferência dos carmelitas para a Europa onde começaram a dedicar-se também a uma vida pastoral e missionária. Quero observar que não existe necessariamente uma oposição entre ação e contemplação. São dois pólos que podem fecundar-se mutuamente. Mas depois de longos anos de intenso trabalho pastoral como padre e depois bispo, decidi retirar-me para o Alto do Rio das Pedras. Em 1995 um membro da família Moreira ofereceu-me em doação um lote da terra que lhe pertence sem eu ter feito um pedido neste sentido. Foi por assim dizer um sinal que aos poucos fez amadurecer em mim a decisão de concretizar um antigo desejo. Afinal, a história vocacional de alguém não encontra seu rumo sem intervenção de mediações humanas.
O que o senhor tem a dizer do esvaziamento da Igreja católica?
A pergunta convida a uma longa reflexão sobre as causas da diminuição numérica dos católicos, embora, segundo análises mais recentes, o ritmo desse abandono esta se tornando mais lento. Mesmo assim, não foi sem razão a V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, realizada no mês de maio em Aparecida, formulou a proposta de "realizar uma Missão continental que as Conferencias Episcopais e cada diocese estão chamadas a estudar e levar a cabo, convocando para isto todas as forças vivas de modo que caminhando a partir de Cristo, se busque o seu rosto". O que me parece importante é que a interrogação sobre a diminuição do número dos católicos leve a um questionamento pessoal: por que permaneço na Igreja ou porque a deixei?
Dom Vital, deixe para nos uma mensagem de fé, esperança e otimismo.
O verdadeiro otimismo depende do jeito com que olhamos para a realidade. Através do olhar dos nossos sentidos, descobrimos a realidade sensível, empírica. Mas a realidade tem uma segunda dimensão que nos é revelada pela razão cujo olhar pode inclusive corrigir os dados dos sentidos. Por sua vez a razão não se salvará sem a fé. Esta nos possibilita um terceiro olhar. É pelo olho da fé que podemos atingir uma terceira dimensão da realidade que é mais profunda. A verdade do ser humano está no equilíbrio que deve existir entre essas três dimensões que são inseparáveis. Quem só se baseia nos sentidos para viver sem recorrer à razão vai desequilibrar-se na vida. Mas despertando para a realidade o ser humano descobre que há bem mais do que aquilo que se conhece através dos sentidos, bem mais do que se pensa através da razão. Separando as três dimensões, surge um desequilíbrio, uma espécie de esquizofrenia que pode virar até uma doença cultural. O otimismo não dura se nos faltar o olhar da fé. É através desse olhar que descubro que eu me recebi a mim mesmo por iniciativa de Alguém que me criou por amor. Afinal é só o amor que cria. A esperança diz respeito ao nosso futuro. Mas não há esperança se ela não estiver fundada numa Presença que habita em mim.
Que essas reflexões possam levar a Boa Nova para todos.
