Aparições do Anjo
Antes das aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria em 1917,
Lúcia, Francisco e Jacinta tiveram no ano anterior três visões
do Anjo, Anjo da Paz ou Anjo de Portugal. Estas visões permaneceram
inéditas até 1937, até Lúcia as divulgar, pela
primeira vez, no designado texto Memória II. A narração
é mais completa e o texto definitivo das orações do anjo
é publicado na Memória IV, escrito em 1941. As aparições
do Anjo em 1916, foram precedidas por três outras visões, de
Abril a Outubro de 1915, nas quais Lúcia e outras três pastorinhas,
Maria Rosa Matias, Teresa Matias e Maria Justino viram, também no outeiro
do Cabeço, e noutros locais, suspensa no ar sobre o arvoredo do vale
"uma como que nuvem mais branca que a neve, algo transparente, com forma
humana. Era uma figura, como se fosse uma estátua de neve, que os raios
do sol tornavam algo transparente". A descrição é
da própria irmã Lúcia.
Primeira aparição
O relato da mais velha dos videntes, Lúcia, descreve assim os acontecimentos:
"Andava eu com os meus primos Francisco e Jacinta a cuidar do rebanho
e subimos a encosta em procura dum abrigo a que chamávamos a "Loca
do Cabeço". Depois de aí merendar e rezar, alguns momentos
havia que jogávamos e eis que um vento sacode as árvores e faz-nos
levantar a vista para ver o que se passava, pois o dia estava sereno. Então
começamos a ver, a alguma distância, sobre as árvores
que se estendiam em direcção ao nascente, uma luz mais branca
que a neve, com a forma dum jovem, transparente, mais brilhante que um cristal
atravessado pelos raios do Sol. À medida que se aproximava, íamos-lhe
distinguindo as feições. Estávamos surpreendidos e meios
absortos. Não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós,
disse: – Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo. E ajoelhando
em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um movimento
sobrenatural, imitamos e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar:
– "Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos
perdão para os que não crêem, não adoram, não
esperam e não Vos amam.! Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se
e disse: – Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão
atentos à voz das vossas súplicas. E desapareceu. A atmosfera
do sobrenatural que nos envolveu era tão intensa, que quase não
nos dávamos conta da própria existência, por um grande
espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha
deixado, repetindo sempre a mesma oração. A presença
de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre nós
nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito
ainda envolvido por essa atmosfera que só muito lentamente foi desaparecendo.
Nesta aparição, nenhum pensou em falar nem em recomendar o segredo.
Ela de si o impôs. Era tão íntima que não era fácil
pronunciar sobre ela a menor palavra. Fez-nos, talvez, também maior
impressão, por ser a primeira assim manifesta."
Segunda aparição
A segunda aparição deu-se no Verão de 1916, sobre o poço
da casa dos pais de Lúcia, junto ao qual as crianças costumavam
brincar. Assim narra a Irmã Lúcia: "Fomos, pois passar
as horas da sesta à sombra das árvores que cercavam o poço
já várias vezes mencionado. De repente, vimos o mesmo Anjo junto
de nós. - Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de
Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia.
Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.
– Como nos havemos de sacrificar? – perguntei. – De tudo
que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação
pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão
dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu
sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai
com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar. E desapareceu.
Estas palavras do Anjo gravaram-se em nosso espírito, como uma luz
que nos fazia compreender quem era Deus, como nos amava e queria ser amado,
o valor do sacrifício e como ele Lhe era agradável, como, por
atenção a ele, convertia os pecadores. Por isso, desde esse
momento, começamos a oferecer ao Senhor tudo que nos mortificava, mas
sem discorrermos a procurar outras mortificações ou penitências,
exceto a de passarmos horas seguidas prostrados por terra, repetindo a oração
que o Anjo nos tinha ensinado."
Terceira aparição
A terceira aparição ocorreu no fim do Verão ou princípio
de Outono de 1916, novamente na "Loca do Cabeço", como descreve
Lúcia: "Rezamos aí o terço e a oração
que na primeira aparição nos tinha ensinado. Estando, pois,
aí, apareceu-nos pela terceira vez, trazendo na mão um cálice
e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam, dentro do cálice,
algumas gotas de sangue. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos
no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a oração:
– Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos
profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma
e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra,
em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças
com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu
Santíssimo Coração e do Coração Imaculado
de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores. Depois,
levantando-se, tomou de novo na mão o cálice e a Hóstia
e deu-me a Hóstia a mim e o que continha no cálice deu-o a beber
à Jacinta e ao Francisco, dizendo, ao mesmo tempo: – Tomai e
bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens
ingratos. Reparai os seus crimes e consolei o vosso Deus. De novo se prostrou
em terra e repetiu conosco mais três vezes a mesma oração:
– Santíssima Trindade Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos
profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma
e Divindade de Jesus Cristo,... E desapareceu. Levados pela força do
sobrenatural que nos envolvia, imitávamos o Anjo em tudo, isto é,
prostrando-nos como Ele e repetindo as orações que Ele dizia.
A força da presença de Deus era tão intensa que nos absorvia
e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos
sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias, fazíamos
as ações materiais como que levados por esse mesmo ser sobrenatural
que a isso nos impelia. A paz e felicidade que sentíamos era grande,
mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento
físico, que nos prostrava, também era grande."
